| T�tulo | Manifesto: Estamos vivos... (de Carlos Quiroga) |
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| Coment�rio | Manifesto de Carlos Quiroga na III Descida em Defesa da L�ngua em Tui, em 22 de Julho de 2000. |
| Data | 22-07-2000 |
| Texto |
Certa alegria e mais responsabilidade me coloca diante de v�s, participando nesta III Descida Em Defesa da L�ngua que o MDL organiza. Certa alegria e alegria certa, por quanto nesta cidade e no motivo que nos convoca nom pode haver mais que sentimentos felizes, mas tamb�m relativa alegria, certa alegria s�, precisamente pola responsabilidade, precisamente polo motivo que convoca, precisamente por haver l�ngua que deva ser defendida. Agrade�o ao MDL, a S�lvia, Lu�s Alonso, aos amigos que trabalh�rom por este encontro, mais do que a imerecida honra de colocar-me neste papel, o papel que desde que existe o Movimento tem procurado cumprir, como outras organiza�ons espalhadas polo Pa�s, nesta lenta caminhada pola normaliza�om e dignifica�om do idioma.
Quem aqui est� nom precisa ouvir manifestos substantivos, imperativos, provocativos, trilhando lugares comuns de razom e reintegra�om que todos e todas compartilhamos. E quem aqui nom est� nem quereria estar, aqueles que mais precisavam ouvir, parece como que se incomodam com o tom substantivo, imperativo, provocativo. Parece que o tempo do Manifesto acabou h� 114 anos com More�s advogando polo "simbolismo", h� 91 com Marinetti lan�ando o Futurismo, h� 85 com Almada abominando do Dantas, h� 76 com Breton fundando o surrealismo, ou h� j� 78, toda umha vida humana, com o nosso Manoel Antonio, rompendo para um Mais al� que ainda hoje nom acaba de chegar. Parece que todo isso fica longe, dilatadamente longe, e, contodo, quando me fal�rom de estar aqui, quando pensei na categoria "manifesto", reparei que nestes �ltimos meses tinham passado polo meu computador at� quatro manifestos (o dos not�veis, o de escritores novos, o de estudantes universit�rios, o Carvalho Calero), todos em maior ou menor grau do teor que aqui se podia esperar ouvir. Parece, entom, que volta o tempo dos manifestos, o sentido dos manifestos, a necessidade dos manifestos. Mais, insisto, quem aqui est� j� sabe, porque � quem compartilha a subst�ncia dessas manifesta�ons, e quem nom quereria estar nom querer� saber, e nom vale a pena cansarmo-nos por esse caminho, de modo que no lugar do substantivo quero conjugar apenas o verbo MANIFESTAR. E no modo indicativo de realidade, na forma simples do presente, no tom mais calmo de estar entre n�s, mas tamb�m para quem queira ouvir: manifesto que estamos vivos. Assi de simples, estamos vivos, e temos for�as, confian�a, um pensamento positivo e criador, de trabalho e capacidade para ele em defesa do galego. Estamos vivos e em n�s est� vivo o milagre de que falava Murguia neste mesmo lugar em 1891. � inevit�vel citar, e umha fortuna imensa poder faz�-lo, o famoso discurso do agora reverenciado pai da p�tria, esse Murguia do que, a prop�sito do seu pol�mico discurso, comentaria no mesmo ano o em apar�ncia antigo aliado Castelar: "Ese Murgu�a tiene mucho talento, y escribe a maravilla la lengua castellana, pero est� loco. Cuando todo tiende a la concentraci�n, el separarse constituye un crimen de lesa humanidad." E de que falou Murguia, nesse famoso discurso dos Primeiros Jogos Florais de Tui, em 1891? Seguramente j� sabedes, mais vale a pena recrear no essencial que continua vivendo em n�s, porque a� est�m por primeira vez os argumentos do reintegracionismo galeguista. Murguia era na altura o porta-voz mais autorizado da chamada "causa regionalista", e o seu discurso ocupou o lugar central desses �picos actos, sendo reproduzido em v�rias publica�ons da �poca. Murguia, marido da "inmortal Musa gallega se�� Rosal�a de Castro" (discurso de Alfredo Bra�as), honrada nos Jogos, apresenta as bases e as expectativas do regionalismo, entre as quais a rela�om com Portugal, colocando nomeadamente a l�ngua como centro da identidade e da ac�om regionalista que postula, a come�ar polo uso p�blico da mesma, a primeira vez que o fai Murguia. As linhas de for�a reintegracionistas desse discurso, que j� resumiu o companheiro Elias Torres (Ler Hist�ria 36), um dos filhos com que se honra esta cidade, um discurso com um ambiente tam prop�cio como o presente (em Tui, com Portugal ao fundo), som estas:
No discurso de Murguia concentram-se todas as linhas do desenvolvimento sist�mico galeguista relativas ao sistema portugu�s. O reintegracionismo cultural est� presente desde as mesmas origens galeguistas como tra�o definidor e legitimador, para cuja constru�om te�rico-pr�tica f�rom importantes as ideias dos eruditos portugueses. Te�filo, Leite, Herculano, iam sendo consagrados como fundamentos da "causa regionalista". Mais, sem pretender abusar da ma�ada erudita, s� quero aludir a Oliveira Martins, que fora convidado aos famosos Jogos Florais de Tui de que estamos falando, a que nom pode acudir por lhe ter chegado tarde a comunica�om, mas que escreve umha carta a Salvador Cabeza, secret�rio dos Jogos:
Quem aqui est� nom precisa ouvir este Oliveira nem aquele Murguia, o passado mais ou menos rico em nomes e palavras do g�nero, nem imaginar o futuro reparando no presente. E quem aqui nom est�, nem quereria estar, nom vai querer ouvir. Mais vale a pena, agora si, cansarmo-nos, mesmo sem substantivos, sem imperativos, conjugando apenas o calmo estamos vivos no modo indicativo, porque a realidade de h� cem anos continua sendo pavorosamente similar e reclamante das mesma afirma�ons, enfrentando a loucura da normalidade que se nos d� para n�s e os nosso filhos com a confian�a no nosso pensamento positivo e criador. Nom podemos querer ser v�timas porque temos propostas construtivas e encarnamos o milagre de que falava Murguia. Estamos vivos e vamos seguir estando para mudar a normalidade. Arno Gruen, num livro que fala precisamente de A loucura da normalidade, escreve que "A tortura de Estado e o atentado terrorista s�o as duas manifesta��es extremas do conformismo e da rebeli�o. O s�dico conformista costuma ser uma pessoa com poder oficial -ou, como os membros dos Esquadr�es da Morte latino-americanos, com a cobertura do aparelho de Estado- que precisa de calar a sua v�tima para apagar a recorda��o da sua pr�pria subjuga��o. O terrorista n�o tem poder oficial; a sua vingan�a visa o poder dos opressores, pelo reconhecimento dos quais secretamente anseia." O poder oficial na sua forma extrema quereria calar-nos, mais n�s nom vamos p�r-nos no outro extremo nem estamos � espera de sermos v�timas. Isso acabou. "Chegou en verdade d'abondo o sabedes como tam�n que pasado o tempo d'os queixumes, n'hay outro remedio (...) que lembrarnos d'o qu'os alleos nos magoaron...", dizia Murguia em 1891. E a nossa melhor mem�ria � estarmos vivos e seguir estando-o, em positivo e sem extremos, para que os conformistas se abominem subjugados a si pr�prios. A �nica vingan�a por nossa parte � seguir construindo, com a cordura e vida que para os conformistas se desqualifica de aparente rebeldia, como se desqualificava h� cem anos nos primeiros galeguistas. Antes deste �ltimo quarto do s�culo todas as posi�ons quanto � l�ngua compartilh�rom, em princ�pio, um alto grau de compromisso pol�tico que reconhecia nesse instrumento o melhor meio para manter a identidade. Assi tinha sido durante a resist�ncia ao franquismo, quando o simples facto de escrever em galego, fosse qual fosse a grafia, j� era um desafio para o poder central e espanhol. Mas nestas �ltimas d�cadas s� o reintegracionismo supom algum modo de desafio, porque o uso do galego administrativo nom s� � politicamente correcto mas est� subsidiado e d� para muitas pessoas viverem exclusivamente dele. Durante os �ltimos 30 anos, o capitalismo de terceira gera�om tamb�m precariamente aqui criou um mercado (escolar) e um campo liter�rio em galego (administrativo), e a maioria dos escritores colocou o seu compromisso apenas em assegurar-se um lugar ao sol neles, e at� no espanhol via tradu�om. Os autores mais velhos abandon�rom na sua pr�tica as orienta�ons reintegracionistas que em geral defend�rom no plano te�rico, salvos os casos de Jenaro Marinhas e Carvalho Calero, e a maior parte dos novos, num tempo de suposta democracia, entr�rom no campo despreocupados polo passado e pola questom identit�ria. Se algumha consci�ncia cr�tica existiu neste sentido, foi ficando arrumada a um canto diante de aspectos que, num presente de enganadora normalidade de mercado (a loucura da normalidade), com editoras, pr�mios liter�rios e recompensas docentes, prometia um futuro igual de feliz ("Nom estou disposto a perder o meu lugar na Hist�ria da Literatura Galega por causa de umha normativa", frase de escritor consagrado). Durante estes anos s� na posi�om reintegracionista se tem conservado o compromisso aludido, aparecendo organiza�ons de resist�ncia, como a AGAL, o MDL, Art�bria, que formulam cr�ticas fundadas da chamada norma oficial, ou elaboram instrumentos coerentes para a escrita do galego dentro do sistema portugu�s. Do ponto de vista desta postura, espalhada a grupos de base e a publica�ons de "vida dificultada", sente-se a l�ngua pr�pria como signo vital em termos identit�rios, e v�-se o apoio nos prolongamentos lusos e bras�licos como contributo imprescind�vel para o refor�o e sobreviv�ncia do galego. E � que o temor por umha Galiza absolutamente castelhanizada nom carece de fundamento, tendo em vista a presen�a esmagadora dos mass media espanh�is, tendo em conta que o galego retrocede, que � respeitado mas nom promovido, que se tende para a fase de modalidade folcl�rica. A posi�om reintegracionista inspira-se na tradi�om do galeguismo que fundava aqui Murguia h� mais de cem anos e que aspira a outra fortuna para o galego: a de nom ser umha rel�quia na vitrina da Uniom Europeia como l�ngua minorizada. � a mesma tradi�om daqueles intelectuais e institui�ons que propugn�rom o galego como l�ngua da Galiza, e que j� antes da ditadura virom claro o �nico caminho poss�vel a seguir. Umha tradi�om nom completamente apagada, felizmente, porque n�s estamos vivos. No outono de 1999 transpareceu de novo um moment�neo debate p�blico, favor�vel � orienta�om ortogr�fica lusista para o galego, em cujas circunst�ncias propiciat�rias nom faltou a voz de v�rios escritores "oficiais". As vozes que se levant�rom, brevemente consentidas polos media mas rapidamente silenciadas e proibidas (e escrevo em consci�ncia essas palavras, porque conhe�o por dentro todo o breve processo), indic�rom que este assunto nom est� fechado, e que a inibi�om nom � absoluta por parte dos escritores e do poder. At� porque de v�rias perspectivas se pode ver com interesse o alargamento do mercado editorial com a mudan�a ortogr�fica. No pr�ximo s�culo, se o controlo dos poderes institu�dos nom for definitivamente estrangulante, dever� haver algumha reforma neste sentido que contribua para salvar o galego e a sua literatura do caminho de espanholiza�om oficial, e portanto de morte, que est� tomando. Depois dessa primavera em pleno outono-inverno, propiciada por um reintegracionismo em positivo, volt�mos ao desalento a que o quase sadismo do poder nos tem habituados. Confirm�mos mais umha vez que isto nom � umha revolu�om, � umha evolu�om. Se o presidente do Conselho da Cultura Galega, digamo-lo bem � luz de Tui e com a boca cheia, acredita na conveni�ncia de aproximar a extravagante ortografia do galego dito oficial � norma portuguesa; se se somam muitas vozes, de empres�rios, banqueiros, escritores... se todos e todas descobrem de repente a maravilha dessa mudan�a, que nos permitam parabenizar. Alboro�adamente. J� ensai�mos a voz alta, como Antero 135 anos atr�s, erguida em nome da liberdade e da justi�a. J� atac�mos, como Almada outros 85 anos antes, o deus sentado no cadeirom azul da altura. Agora o Sr. Ant�nio Feliciano de Castilho, todos os Dantas de turno, que levem as nossas palmas cordiais, coitados conformistas. Som muitos anos vendo-os passar, depois de Murguia, para saber que os conformistas nom ousam. Os conformistas encontram-se em qualquer s�tio onde haja poder, para nom ousar. Mas vamos ajud�-los porque podemos e sabemos, desde a rebeliom de estarmos vivos. Carlos Quiroga, III Descida em Defesa da L�ngua, Tui, em 22 de Julho de 2000. |
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