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VOU-TE ADICIONAR E QUANDO ACABAR BLOQUEIO-TE
Ana Sá Lopes jornalista
Vou-te adicionar. O leitor sabe o que isto quer dizer? Não deverá saber, se não for utilizador do messenger, essa ferramenta que por acaso até é muito útil para o trabalho, porque é mais veloz do que o telefone e o mail juntos e poupa circuitos de footing de intensidade variável entre os diversos departamentos de uma qualquer unidade de produção.
Além da comunicação instantânea destinada à função trabalho, o messenger tem, digamos, outros encantos: a possibilidade de estabelecer uma relação através de um fragmento de linguagem, estabelecê-la aos solavancos, produzi-la sem a minúcia do produto acabado. A carta, a velha carta com princípio, meio e fim, objecto de nostalgias variadas, é encantadora mas obriga à disciplina de uma comunicação ordenada. O mail, o seu sucedâneo, é um pesadelo de formalismo quando comparado com a simplicidade do messenger.
Todo um léxico novo veio agregado à utilização do messenger : no messenger, as pessoas "adicionam-se" umas às outras. Se pensarmos um segundo, concluímos facilmente que qualquer relação começa pela adição, variante contas de somar - vamos somando pessoas à vida - mas teve que chegar o messenger para concluirmos que, ao fim e ao cabo, o que fazemos quotidianamente é adicionarmo-nos uns aos outros ou, quando a coisa corre para o torto, "bloquearmo-nos" - é exactamente assim que se chama no messenger ao acto de riscar um endereço quando deixamos de querer receber mensagens de alguém.
Falamos hoje uma língua que desconhecíamos há 20 anos. A banalização do telemóvel veio tornar quotidiana a famigerada e abstrusa pergunta "onde é que estás?". Pergunta-se ao mais discreto dos cidadãos onde é que está, seja dia, seja noite, contando que o cidadão em causa explique as suas coordenadas geográficas sem mentir.
Quando os computadores apareceram, algumas pessoas passaram a imprimir coisas, mas a maior daqueles que eu conheço ficaram-se por printar coisas, mesmo quando o computador já tinha as funções traduzidas. Printa-se um print evidentemente.
Recentemente, a maior das revoluções foi a língua juvenil dos kkkkkk. Como já se passava com a coca-cola no tempo de Fernando Pessoa e qualquer outra língua ou uso que passa a corrente, primeiro estranha-se, depois entranha-se. A língua dos kkkkk, formatada à medida da linguagem instantânea dos sms e do messenger, torna-se absolutamente atractiva - mesmo para velhos - pela simplicidade. Chega- -se lá depois das resistências iniciais, mas chega-se (eu abjurava os kkkkkk e, sem saber como, dei por mim a grafá-los continuamente em certas e determinadas circunstâncias). Banir vogais e grafar kkkk é o que já fazemos na linguagem informal. Quem é que tem, ao fim e ao cabo, medo do Acordo Ortográfico?|
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