- Semelha que caiu uma pinga
- Nom lho digas a ninguém. O público nom se pode inteirar de que chove
(Diálogo entre dous membros de ENE AGÁ 15/05/2003 9:00h GMT)
Choveu. Nom houvo quê lhe fazer. Começou aos poucos, tentamos ocultá-lo, continuamos como se nada, mas nom se pudo evitar. O chão estava já molhado, dos cabelos escoava a água, os técnicos tapavam a mesa de som. Choveu em fim. Mas houvo festa.
Com uma hora de atraso sobre o horário previsto e com bem menos gente da aguardada, todo por mor do mau tempo, às onze e meia da manhã do dezassete de maio o grupo de teatro Bucaneros Ponto Com abriam a IX Ediçom da Festa da Língua de Ponte Vedra.
A sua particular versom do Mágico de Oz, protagonizada por um logrado Shin-Chan que se ia topando polo caminho com George Bush, Sadam Hussein, Aznar, Harry Potter ou com o Shrek, arrancava os risos dos mais de meio centenar de pessoas congregadas na praça. A escassez de recursos deste grupo amador foi sobejamente compensada com imaginaçom e bom fazer, e os maiores gozarom com alusões a tempos mais novos (míticas referências ao Amo do Calabouço) ao tempo que os pequenos viam ao vivo umas curiosas versões dos heróis televisivos de hoje.
Nom houvo que aguardar muito para que começasse a música com uma actuaçom de luxo. Ecléctica Ensemble, o grupo surgido do Conservatório de Música Folque de Lalim com Ugia Pedreira à cabeça deu boa mostra de lusofonia no cenário. Temas tradicionais dum e doutro lado da raia misturárom-se ao ritmo mais vivo da percussom.
A chuva remitia ligeiramente, e a esperança voltava aos nossos rostos. Excursões de idosos que visitavam o Museu de Ponte Vedra, turistas e passeantes somavam-se à festa, e aos poucos, iam abrindo os bares da zona e incrementando-se o público. Guisám Seixas ia dando passo com celeridade de grupo a grupo, aproveitando para meter referências constantes à situaçom da nossa língua. Quando é a festa do trabalho nom se trabalha, e hoje que é a festa da língua estamos todos contentos porque se fale, sinalava. E complementava esta afirmaçom com respeitáveis intentos por apresentar alguma das actuações sem empregar o tal órgão.
Neste panorama, Nilsom tivo já uma boa quantidade de meninos para o seu conta-contos. Sentado nas escaleiras do cruzeiro central e rodeado de perto pola sua audiência, o brasileiro foi debulhando as suas histórias com humor. A atençom ao seu contar era total. Até os mais pequenos semelhavam entender... e nom era que este homem nom falava galego? ;-)
Voltou depois a música, desde a outra banda do Atlántico, cos ritmos do João Curiel. Chico César, Caetano Veloso... o sol semelhava vir também nos seus sons, e pensamo-nos já salvados para a fim de festa. Meninos correndo pola praça, mesas ao ar livre, mais dum cento de pessoas desfrutando da actuaçom... Ainda pudérom aproveitar o bom tempo Côdea e Miolo, com o seu espectacular conto de lobos e panelas que fijo as delícias dos mais novos e causou admiraçom dos adultos. Contos e teatro unidos, o que Guisám Seixas definiu coma um cont-trato.
Infelizmente a chuva voltou para despedir-nos. De qualquer jeito, os veteranos Quinta Feira, já habituais neste encontro anual, nom se acanhárom (afeitos coma estám a que nom nos acompanhe o bom tempo) e decidírom continuar a sua actuaçom. Isso sim, refugiando-se em baixo da pequena ponte de pedra que une os dous edifícios do museu. Uma imagem de filme. A mesa de som coberta por um plástico. O palco baleiro. Debaixo do arco e cortando o acesso a rua o numeroso grupo de músicos (baterista incluído) interpretavam um a um os seus temas. A fotografia era boa para a capa dum seu disco.
Apesar da fugida registada a última hora (como todos os incidentes da festa, por causas meteorológicas), ainda resistirom bem mais de cincuenta pessoas. A cifra está contrastada, já que meio cento fomos os que nos juntamos a comer depois da festa. E ainda nom éramos todos os da praça.
Mais um ano, vimos que os meteoros nom nos som propícios aos reintegracionistas. E alguém se lembraria de lhe levar os ovos a Santa Clara? Vai ser cousa de provar para a vindoira festa.