O Padre Martín Sarmiento (1695-1772) Muito se tem escrito sobre a figura do Padre Martín Sarmiento. Educado em galego na sua infância em Ponte Vedra, este ilustrado berciano é uma luz que reflexiona sobre a nossa língua na longa noite que os Séculos Escuros representaram para o galego escrito. São muitas as reinterpretações que da sua obra se têm feito (nem sempre em concordância com o espírito dos trabalhos do padre) e muitas são também as palavras suas que têm ficado de fora nos manuais de história da nossa língua. À procura das origens da mesma e da sua dignificação, o berciano escreve várias obras em que pretende esclarecer diferentes questões sobre o passado e o futuro da sua língua materna. Hoje, nós, pretendemos fazer uma pequena reflexão sobre este nosso antepassado com a intenção de sabermos construir assim um futuro sem sombras em que o galego seja a ferramenta de comunicação "capaz de tudo" que ele próprio reclamava para os seus contemporâneos. Sarmiento parte nos seus textos da ideia de que a antiga Gallaecia continua a ter vida na cultura popular das duas beiras do Minho, formando uma entidade cultural comum aos povos galego e português que não é possível ignorar: [...] Portugal erigiu-se em reino à parte, agregou muitos países da Galiza. Disto resultou que muitas coisas que na realidade são galegas, tenham passado por portuguesas [...] Esta entidade cultural continuava a ser uma entidade linguística que, segundo a testemunha do berciano, conservava o continuum linguístico de Ortegal a Faro até ao ponto de não ser fácil distinguir os falantes de um e outro dialecto da áre a lusófona peninsular: [...] (os portugueses) como tinham monarca próprio, introduziram nas escrituras públicas e privadas, aquele vulgar primitivo, que era comum às duas classes de galegos lucenses e bracharenses, o qual, com o tempo, e com o exercício de se escrever se fez como dialecto distinto, e é o que hoje chamamos português; embora ainda tenha hoje tanta similitude com o vulgar galego, que hoje é falado, que não todos o sabem discernir. Os primeiros estudos linguísticos de Sarmiento estavam orientados à investigação etimológica, é assim que começa o seu interesse pelo galego, que privado de usos escritos na altura, se lhe apresentava como um objecto de estudo que mantinha (em sua opinião) uma maior "pureza" do que as línguas com registo escrito e consequentemente lhe oferecia muitas vantagens no seu estudo do passo do latim aos romanços peninsulares. A afixação escrita do dialecto português era, para o berciano, a causante da corrupção do mesmo, situando-o longe da naturalidade de um dialecto do Norte que, pela sua anormalidade de usos, não tivera a necessidade de se corromper com a entrada de novos vocábulos estrangeiros e cultismos imprescindíveis nos campos das ciências, da técnica, da educação...: Todo português que quiser rastejar etimologias das suas vozes, tem de olhar ao Norte como a uma língua matriz, para reduzir a ela as vozes portuguesas vulgares [...]. A língua latina conservou-se na Galiza por muitos centenares de anos, sem meter-se outra língua no meio; e da sua corrupção até Alonso VI formou-se o dialecto galego, e deste formou-se o subdialecto português. [...] falo da língua portuguesa vulgar, que se fala nas aldeias. Não da que se escreve desde há 300 anos, pois essa língua nada tem de portuguesa [...] Apresenta-nos deste jeito Sarmiento uma língua portuguesa que não é mais do que o resultado da incorporação de vozes forâneas e exóticas ao galego vulgar: É sabido que a famosa conquista de Portugal foi da Galiza para o Meio-dia, e em tempo que já a Galiza estava com o seu idioma vulgar. Assim a língua portuguesa pura não é outra coisa que a extensão da galega, e que depois se carregou de vozes forasteiras, mouriscas, africanas, orientais, brasileiras, etc., como se pode ver em Bluteau. Mas este achegamento puramente científico à língua abrirá os olhos do padre para uma realidade que até então tinha passado inadvertida. Como é que as crianças galegas podem estudar numa língua que não é a sua, estranha, alheia, desconhecida! [...] sistema de ensinar a língua latina sem sair da galega e desterrar da Galiza a cruel e tiránica barbárie de estudar uma língua ignota por outra língua desconhecida. A pedagogia foi também uma das paixões de um Sarmiento que optou sempre pela razão, pela compreensão dos conhecimentos: Com estudar de cor não se exercita outra coisa que a paciência da pobre criança, violenta-se a sua vontade e ofusca-se o seu conhecimento. Sarmiento sabia que o galego pode ser a língua das ciências e do conhecimento e que, para o ser, simplesmente seria necessário acrescentar-lhe o vocabulário especializado que todas as línguas normais da altura estavam a criar no seu processo de modernização: Se hoje se quisesse escrever (o galego), tanto como em Castela, e em Portugal é o idioma capaz de tudo, agregando-se-lhe as mesmas vozes estranhas que se aplicaram àqueles dialectos: pois as vozes Trópico, Paralaxe, Cosmografia, Liturgia, Synopsis, Anthropophago, etc. sendo puras gregas e pronunciáveis em galego, não sei porque, exclusivamente, se têm de chamar portuguesas, francesas ou castelhanas. Como bom pedagogo o Padre Sarmiento optará sempre pela opção mais natural e simples para a adquisição de conhecimentos. A memorística e o estudo em castelhano não são, para ele, produtivos na Galiza, e optará então por recomendar o uso de manuais portugueses pelas crianças galegas: [...] mostrei-lhe o Divertimento Erudito do Padre Pacheco em português [...] a criança galega encontrou os 3 tomos primeiros desse Divertimento em fólio e levou-lhos ao seu pai galego, que é homem de letras [...] o pai da criança gostou muitíssimo dessa obra em português [...] e sendo galegos o pai e a criança com facilidade compreenderam o texto português da obra Divertimento a pouca pouca inflexão que o reduza ao galego. A normalidade de usos para o galego é um objectivo ao que Sarmiento não quis renunciar. Para fazer da nossa língua esse idioma "capaz de tudo" que ele próprio anuncia, o berciano propõe o português como fonte da renovação e da modernização do galego, por não ser este (e segundo se desprende dos seus textos) outra coisa que o galego normalizado e nacionalizado: Não há ciência especulativa, não há arte liberal, não há ofício mecânico que não tenha unidas as suas vozes, em português, no Divertimento Erudito do Padre Pacheco. Eu revi esses tomos e quase são galegas todas as suas vozes, exceptuando tal pronúncia portuguesa, que a criança galega poderá reduzir à sua língua nativa. Textos tirados de: - Estudio sobre el origen y formación de la lengua gallega - Discurso apologético por el arte de rastrear las más oportunas etimologías de las voces vulgares
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