|
Inauguramos a secção de opinião do nosso sitio web com um artigo do compositor e editor musical Rudesindo Soutelo. Para acceder a máis informação sobre o seu trabalho e obras veja as seguintes ligações: http://www.soutelo.eu/ http://artetripharia.com/
Outra música é possível Desculpem que no Dia Internacional da Mulher não lhes fale da música culta galega, porque há outras músicas -perversas, brutais, destrutivas, que ferem e matam- músicas anti-culturais que precisam da nossa atenção urgente para salvar a dignidade humana. Temos demasiados buracos negros nesta sociedade e não podemos olhar para outro lado sem sentir repugnância da espécie animal que nos engloba. O silêncio nos converteria em vulgares inflagaitas a animar uma festa amarga, cruel e indigna.
A violência, em qualquer dos âmbitos onde se manifesta -familiar, laboral, festivo, político, militar, religioso, ou de estado-, é sempre a mesma e tão só variam os graus de intensidade, impunidade ou tolerância social. Só existe uma forma de violência: a que degrada a dignidade do ser humano, é dizer, que rompe alguma forma de integridade da vítima, seja física, psíquica, sexual ou moral. Toda violência é igual de intolerável e nada a pode justificar. As multinacionais do ócio globalizante, essas que nos acossam por toda a parte para forçar-nos a consumir a sua bazófia pseudo-cultural, sabem muito bem que a indústria da violência é o negócio mais rentável porque subverte a capacidade crítica dos indivíduos e os torna mais submissos. Uma cantadeira usamericana muito ouvida pelos adolescentes de tudo o mundo, Britney Spears, numa das suas canções deixa cair uma frase aparentemente inocente; mas instalada no subconsciente dos futuros adultos é uma bomba de relojoaria. "Hit me, baby, one more time" (Golpeia-me outra vez, baby) que repetido uma e outra vez chega a interiorizar-se e legitimar uma violência execrável da qual as mulheres são as vítimas principais.
Nos textos da música tradicional há exemplos de vileza moral contra as mulheres, e muitas das canções populares em espanhol que configura o repertório habitual das orquestras de baile que amenizam as inúmeras festas que se celebram por toda a Galiza durante o ano, falam de sexismo, violência e maltrato sem que ninguém faça nada por evitar essa sibilina forma de vexação, vergonha e tormento que se dirige festivamente contra as mulheres. Desde o tango de Carlos Gardel, "Tomo y obligo", que diz textualmente "los celos me estaban cegando / no sé como pude contenerme / y no la maté", passando pela famosa copla "La bien pagá", até as atrocidades que dizia o roqueiro Loquilho na canção "La mataré" onde expressa barbaridades desta índole: "quiero verla entre los muertos / que no la encuentre jamás / porque sé que la voy a matar".
Uma justificação perversa da violência é aquela que pretende convencer-nos da sua necessidade para impor disciplina, ocultando interessadamente que a disciplina só se adquire com estima e respeito. A disciplina depura o pensamento e valoriza a liberdade pessoal transformando-nos em seres sociais, e também nos capacita para superar os condicionamentos internos ou externos que encontramos na vida quotidiana. As normas de convivência, a democracia e mesmo a autoridade fundamenta-se na disciplina mas quando esta é imposta com violência então se converte em vulgar repressão. A disciplina nos faz livres mas a violência escraviza.
As relações sociais baseadas na violência são todas de estrutura vertical. Acima está o poder, a força, a autoridade, a lei, elementos tradicionalmente considerados masculinos. Abaixo está a submissão, obediência, e tudo o que a tradição judeu-cristiana considera próprio da mulher, como descanso do guerreiro, beleza, encanto, sensibilidade; e chega inclusive à infâmia de a qualificar de sexo débil e confiná-la à função doméstica e reprodutora que Engels definiu como "proletária do homem". O discurso de comunicação vertical sustenta-se no já-dito, na memória acrítica, no acatamento do "status quo", na alieanação ou anulação da personalidade individual, em fim, nos preconceitos falocêntricos que galantemente nos atraem para, uma volta atrapados nesse campo de gravitação, descobrir com horror que é um buraco negro que se alimenta da nossa destruição. E fugir dele não sempre é factível.
Temos de depurar ainda muito as normas de convivência social para transformar essa comunicação vertical num discurso horizontal formulado e dito por nós mesmos num plano não hierárquico, entre iguais, porque o poder não existe como objecto natural, o que sim há são relações de poder como práticas sociais, que dizia Michel Foucault. Mas isto é a essência do feminismo como revolução cultural e ideológica que pretende libertar por igual homens e mulheres e dar uma nova forma as relações individuais e sociais.
Nenhum avanço cultural ou social se produz em compartimentos estancos e na música culta ocidental dos últimos cem anos, como em todas as artes, opera-se esse mesmo processo de transformação da linguagem vertical -falocêntrica, tonal- em linguagem horizontal -sem hierarquias, atonal- mas os preconceitos culturais seguem a aliciar uma perversa indústria da violência globalizante que se retro-alimenta na recriação involutiva da tradição e num conservantismo infértil da música popular.
Numa estrutura horizontal do discurso, da linguagem, da sociedade, existem tensões e distensões mas nunca violências. E isso é precisamente o que muitos vêem com receio porque para eles significa a perda do controle.
Devemos então proclamar que uma outra música é possível.
© 2007 by Rudesindo Soutelo
|