Neste domingo fez 17 anos que morreu um dos grandes vultos do reintegracionismo. O professor Ricardo Carvalho Calero foi o primeiro catedrático univesitário de Língua e literatura e autor duma completa senão a melhor História da Literatura Galega. Sintetizador da ideologia reintegracionista aprendida em tempos da República soube elaborar como ninguém antes a teoria da defesa da língua para a sua práctica actual na modernidade.
Reproduzimos a seguir um texto-poema do Prof. Carlos Quiroga lido na palestra que ofereceu dentro dos actos da Gentalha do Pichel de comemoração e homenagem ao Prof. Ricardo Carvalho Calero.
Todo o mundo sabe que eu professo
em matéria lingüística as ideias
as ideias de Castelao, as ideias.
Todo o mundo sabe como essas ideias
som contrárias às que acima mandam
nas esferas do poder, nas esferas.
Todo aquele que professa o que eu professo
é um herege e um cismático,
um cismático das altas esferas.
Todo o mundo que estima inservível
esta língua na que falo, canto,
que acha perder tempo, perder pasta,
que vê nela um atentado contra a unidade
dos reinos todos das esferas, as esferas,
todos esses devem ser antilusistas,
todos eles devem ser anticarvalhos,
e todos lá acima que se gritem antigalegos,
todos se confessem abertamente castelhanistas.
É razoável essa postura nas esferas
é razoável aprender inglês e tudo,
é razoável aprender pinheiros e eucaliptos,
é razoável sempre nas esferas.
E até aqui no monte é razoável
após tantos séculos de castelhano:
é razoável eucaliptar-nos,
é razoável na mentalidade dos galegos,
é razoável que até os galeguistas radicais
revelem às vezes no seu radicalismo
o seu razoável castelhanismo.
Em matéria lingüística o nacionalismo
que propugna o isolamento desta floresta
parece inconsciente manifestaçom
da vassalagem a outro ponto de vista,
o ponto de vista das esferas, as esferas,
o ponto de vista castelhanista, eucaliptista.
Nom é sensato ignorar o português
quando se trata de ordenar este galego.
Os problemas que abordam os plantadores
galegos, perplexos por tamanhos problemas,
fôram resolvidos no português
em forma perfeitamente aceitável
para nós.
Para nós!
Alguns já descobriram,
nós e muita Gentalha,
e aprendemos na casa vizinha
e vemos o mundo grande
e sabemos que nos serve para um mundo,
inservível é fechar os olhos,
nefasto só fechar as portas.
Outros ensaiam o jogo pueril de inventar saídas
que vizinhos já bem contrastaram,
no mundo das sete partidas.
E no jogo cerril acirra-se um ódio
indiferente ao português,
no que parece resultado de inocular
um vírus preparado por inimigos
da pervivência do galego, meu irmao,
do galego que ainda pervive.
Carlos Quiroga é professor titular de literatura na USC
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