 Publicamos a seguir a comunicação íntegra apresentada por Rudesindo Soutelo o passado 3 de Outubro de 2006 no Vº Colóquio de Lusofonia celebrado em Bragança.
Corpus Musicum Gallaeciae
"Limites são pontos de impasse, de conflito. Pontos de encontro e de imbricações. Os limites do território feminino são mutáveis e dependentes de outros territórios: históricos, culturais, sobretudo sociais. Os territórios femininos, assim como outros, constituem combinações, territórios híbridos. Não há limites a priori. Há percepções e interpretações que podem limitá-los, mas eles se revolvem e criam outras demarcações."
Estas são algumas considerações que a respeito dos limites do território feminino fez a Doutora Irene Tourinho da Universidade Federal de Goiás (Brasil) -investigadora de educação musical e cultura visual- como comissária da exposição "Mitos e territórios" no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo.
Nesse território feminino é que eu enquadro a música e mesmo toda a cultura, pois esse é o único território que pode definir a uma comunidade, um país, uma nação. Os limites desse espaço não os determina a política senão os criadores das senhas de identidade do povo, os poetas, compositores, romancistas, pintores, cineastas, escultores..., o mesmo povo.
Sem cultura própria não existe uma verdadeira coesão social nem sequer uma economia própria, apenas negócio, oportunismo, ou mesmo corrupção, fraude e caciquismo. E sem alta cultura também não há uma alta economia.
Alta e baixa cultura não é uma definição classista porque ambas coexistem em todas as capas sociais e interagem entre si. O grau de complexidade, elaboração estética, transcendência do ser, formação ética, é o que define uma expressão cultural e caracteriza a um povo. Se nos percebemos limitados é preciso revolvermo-nos para criar outras demarcações, mudar os mitos e as interpretações que nos limitam, mas sobretudo, criar massa crítica.
A música tradicional é uma reelaboração continuada por gerações sucessivas que a corrige, emenda, pule, aprimora, eleva delicadamente o grau de complexidade e a melhora até torná-la uma expressão perfeita do povo que a exprime, para assim transmitir as suas ideias, sentimentos e emoções dum modo requintado ao tempo que singelo. Na música culta essa complexa elaboração a realiza um compositor com o engenho, habilidade e agudeza de espírito para captar a realidade oculta da sociedade na que está imerso e fazer reflectir à consciência social, daí que a maior parte das vezes, e isto é uma constante histórica, o reconhecimento do génio se produz pouco a pouco em gerações posteriores quando a sociedade consegue assimilar as suas propostas. Pelo contrário a baixa cultura não suscita dilemas, apenas entretenimento, passatempo, distracção, é a cultura do vagar, lazer ou preguiça, que é algo saudável e até necessário mas quando isso predomina no corpo social então a consciência também se torna preguiçosa. "Limites são pontos de impasse, de conflito".
As multinacionais que controlam o 80% do negócio mundial da música (Universal, Sony, Warner e EMI) identificam interessadamente a cultura com o ócio para logo a pôr a venda nessas modernas quinquilharias que chamam Centros de Ócio, onde o paradigma é a comida-lixo de vistosas cores e inutilidade alimentária. Bagatelas e miudezas culturais é o que nos oferecem as multinacionais do ócio global. Aí é que ninguém duvida da saúde da música galega, essa que a imprópria etiqueta 'celta' inseriu no negócio simplificador e consumista do ócio de encefalograma plano. Mas a alta música galega, tanto a música culta como o repertório tradicional que é alicerce e requintada essência do povo, não tem canais de difusão adequados nem proporcionais ao seu cometido cultural, e tão só existe pela vontade heróica dos compositores ou estudiosos que se negam a ser mercadoria narcótica e alienante. Mas nem toda a música alegadamente culta é alta cultura por si própria, nem toda a música popular, mesmo a de consumo de massas, é baixa cultura. Há "pontos de encontro e de imbricações", "territórios híbridos".
A música culta galega começa a sua história, escrita em cinco linhas, no século XIII, com as cantigas de Martim Códax e as de Afonso IX o sábio (X na Castela). O eminente musicólogo catalão Higínio Anglés disse que "é o maior monumento da música culta ocidental". Anterior a estas partituras temos o indecifrável códice de Fernando I, século XI, em escritura musical neumática e mais o famoso códice calixtino do século XII -contemporâneo do Pôrtico da Glória esculpido em pedra pelo Mestre Mateo- e que contem as primeiras polifonias conhecidas da música ocidental, escritas ainda em tetragrama mas sem identificar aos autores nem a procedência das músicas. Devemos pois considerar a Martim Códax como o primeiro compositor galego documentado e de quem se conservam partituras. O códice com as músicas das cantigas de amigo de Martim Códax foi leiloado em Londres no ano 1977 e nenhuma instituição galega ou espanhola mostrou interesse nele. Foi adquirido pela Pierpont Morgan Library de Nova Iorque.
Esse esplendor medieval da nossa cultura foi esmorecendo e assim vieram séculos obscuros para os nossos criadores musicais, ainda que a música continuava a ser cultivada tanto dentro como fora dos templos galegos, os nossos criadores foram eliminados da cena musical. Nos arquivos galegos da época encontram-se cópias de obras de grandes compositores europeus do momento, o qual induz a pensar que existia uma exigente demanda musical e uns qualificados músicos. Por outro lado, não é casual que a história da imprensa galega comece precisamente com um livro de música, o Missale Auriense da catedral de Ourense, feito no ano 1494 em Monterrei. Mas como se explica a desaparição absoluta dos compositores galegos?
Até o século XVIII o cultivo da música culta na Galiza permaneceu no entorno das Capelas de Música das Catedrais e Colegiatas, com Mestres sempre de fora. Esses Mestres escreveram muita música na Galiza e alguns mesmo de certa altura artística como é o caso do barroco navarro José de Vaquedano ou a do italiano Buono Chiodi que introduziu na Galiza o estilo clássico. Mas nenhum chegou a desenvolver características próprias da música galega (ritmos, harmonias, temas, estilos). Cinco séculos de total obscuridade na criação musical galega depois de dar à luz o maior monumento da música ocidental não pode depender do acaso. Após dos trovadores, e com uma vida musical relevante e propícia, que está ao dia do que acontece na Europa, é difícil imaginar a carência absoluta de compositores galegos num período de tempo tão extenso.
No século XIII a Galiza foi integrada na coroa de Castela e aí começou a paulatina substituição da nobreza galega e a castelanização das capas altas da sociedade. A Igreja galega assumiu como próprios os interesses da coroa e teve um papel fundamental no declínio da nossa cultura, no desprestígio e marginação da língua, na desgaleguização da sociedade. Nesse empenho colonizador não podia permitir-se um Mestre de Capela, ou seja um compositor, galego, e se algum existiu foi expurgado ou obrigado a mudar a sua origem para sobreviver. Sem cultura própria não existe economia própria nem coexão social e prova disso temos ainda hoje nos jornais com as notícias de empresas galegas que se expatriam.
A finais do século XVIII os ilustrados com Frei Martim Sarmiento a frente iniciam a recuperação de língua e a cultura galega. Também a finais do XVIII começam a chegar à Galiza as companhias italianas de ópera e isto vai propiciar a construção da maioria dos teatros que se fizeram na primeira metade do século XIX, quase todos chamados de Principal. O quase monopólio musical que até esse momento tinha a Igreja vai quebrar. Não deixa de ser simbólico que seja nesse contexto quando Melchor López, Mestre de Capela de Compostela e natural de Guadalajara, compõe uns 'Vilancicos galegos'.
Ao longo do século XIX a Igreja galega perdeu o esplendor económico dos séculos obscuros e com ele o controle cultural do país. É o ressurgimento ou renascimento da Galiza. A pequena burguesia, toda ela vinda de fora, levantou os teatros para desfrutar da ópera italiana e criou instituições de ensino musical. Apareceram as Sociedades Filarmónicas, Liceus, Casinos e Cafés onde a música não religiosa se expande e começam a borbotar os criadores galegos. Marcial del Adalid é o primeiro compositor relevante desse renascimento galego, chegando a utilizar melodias populares galegas e textos de Rosalia Castro.
Mas é no último terço do século quando o fervilhar de compositores galegos se manifesta com força (Baldomir, Castro 'Chané', Montes, Veiga) criando um grande número de baladas e melodias populares com textos de Rosalia, Curros Enríquez, Pondal e outros poetas. Também aparecem nessa época os primeiros orfeões que junto com as Bandas de Música que já começaram a surdir a mediados do século, vão ter um papel primordial na difusão e formação musical. E o mais importante desse período é que deu origem à primeira editora de música galega, Canuto Berea, que permitiu a difusão e consolidação da nossa incipiente criação musical.
O século XX dispersou toda essa actividade. Por uma parte os compositores galegos emigram para completar a sua formação -Gaos, Quiroga, Soutullo, Bal y Gay- e os que permanecem no país não evoluem a sua linguagem. Depois da guerra a actividade musical foi-se recuperando mas reproduzindo o esquema dos séculos obscuros onde os compositores galegos eram ignorados, tanto os exilados como as novas gerações que tiveram de sair do país para sobreviver ou desenvolver o seu lavor criativo.
O acontecer criativo da música culta galega sempre correu ligado ao acontecer criativo da língua, e a desgaleguização empreendida pela ditadura fascista ainda persiste tanto na sociedade como nas instituições. No ano 1994 elaborei o primeiro projecto para criar uma colecção sistemática da música culta galega e pretendi que tal empenho fosse tutelado por uma instituição pública. Rogélio Groba e mais eu perdemos muitas horas em visitas aos responsáveis da política cultural do governo galego para explicar a necessidade de acometer tal empreendimento histórico e abrir assim o caminho a uma indústria da música culta galega fundamentada nos compositores vivos que estão a criar a nossa identidade actual.
Ninguém nos compreendeu, ou tal vez sim perceberam o perigo que a nossa proposta supunha para os objectivos desgaleguizadores daquela direita antigalega, e nada conseguimos. Mas a criatividade dos nossos compositores precisava de sair à luz e a editora de música Arte Tripharia assumiu esse desafio. O boicote das instituições não tardou em manifestar-se. A CRTVG chegou a proibir a emissão das obras editadas no Corpus Musicum Gallaeciae. As Escolas de Música e Conservatórios da Galiza, altamente desgaleguizados, não compraram nem um só exemplar. Após 10 anos de trabalho e com um bom feixe de obras no catálogo, algo começa a mudar. A Rádio Galega volve a emitir as obras e mesmo está a colaborar na gravação do repertório do Corpus Musicum Gallaeciae para difundir. Os Conservatórios galegos estão a receber as edições por iniciativa da Conselharia de Cultura. Estão a desenvolver-se convénios com a Direcção Geral de Criação e Difusão Cultural para estimular a criação de novo repertório para os grupos de câmara galegos. Há estreias de compositores galegos em concertos promovidos por instituições públicas. Tudo isto está começando a andar e ainda precisa dum longo percorrido para dar frutos, mas estamos no caminho para fortalecer uma cultura musical própria na qual se apoie uma economia e uma industria também própria. "Os limites do território feminino são mutáveis e dependentes de outros territórios: históricos, culturais, sobretudo sociais."
Fundei a editora de música Arte Tripharia em Madrid no ano 1980 e no 2005 a transferi para Tui, na Galiza, para assentar assim o Corpus Musicum Gallaeciae no seu berço natural e continuar a lavor editora iniciada por Canuto Berea. A história demonstra que a música culta, e a cultura galega em geral, está unida ao acontecer da língua. Portanto se queremos inserir a musica galega no mercado internacional temos de ligá-la ao devir da língua de cultura que desde a Gallaecia foi espalhada aos cinco continentes. Assim é que não só publicamos obras de compositores administrativamente galegos, senão dos culturalmente galegos, que num amplo e moderno sentido da Gallaecia abrange aos compositores de toda a lusofonia.
O desenvolvimento duma cultura só é possível em liberdade. Sem uma absoluta liberdade de expressão não há uma verdadeira criação cultural. Essa liberdade só é possível se aquele que cria é totalmente independente. E na sociedade actual essa independência passa pela emancipação económica. O criador que não pode viver do seu trabalho criativo antes ou depois cede às pressões ou abandona a criação. As multinacionais não têm interesse pela cultura senão pelos resultados económicos, pelos produtos fingidamente culturais de consumo massivo. Qualquer trabalho criativo que achegue massa crítica à sociedade é rejeitado como pernicioso para os seus interesses. As editoras independentes, e não sei por quanto tempo, ainda controlamos um 20% do mercado da música. Uma fatia do mercado constantemente ameaçada pela agressiva acção das multinacionais que ambicionam o controle total, e para isso não duvidam em promover métodos destrutivos do mercado, como a pirataria, para assim eliminar a concorrência e se converter em ditaduras culturais globais. O curioso é que nesse empenho contam com a colaboração dos que dizem estar contra a globalização.
As editoras de música pequenas e independentes não só temos meios muito limitados para impulsar e fomentar a criação livre senão que logo padecemos o ataque dos colaboracionistas anticulturais com a pirataria massiva nos Conservatórios, Bandas de Música, Orquestras, Grupos, as descargas ilegais na rede, etc. As multinacionais já promovem o grátis total nos seus sítios de internet e a independência dos pequenos editores e dos autores, que assegura a liberdade de expressão, está ameaçada de morte. Neste caso o que está em perigo é a sobrevivência da música e de toda a cultura galega. Mas esta vez a desgaleguização vem da mão duma globalização que ultrapassa os limites até agora conhecidos.
A cultura fez possível elevar a condição humana à categoria de cidadão. O ultraliberalismo rebaixou-na a mero consumidor. A falsa gratuitidade promovida pela globalização nos está a transformar em simples mercadoria. Num jornal que se recebe gratuitamente ou numa música que se descarga livremente na rede já não somos clientes nem consumidores senão meros utentes que o jornal ou portal de internet vende aos anunciantes, portanto não temos sequer o direito a opinar ou protestar pela baixa qualidade do produto porque a mercadoria já somos nós mesmos. "Não há limites a priori".
A Doutora Irene Tourinho concluía as considerações citadas acima com esta outra reflexão: "Somos antes de tudo seres culturais e sociais. Aprendemos com a troca, com os deslocamentos e com as passagens e paisagens de mundos diferentes."
A cultura galega, a música, como território feminino que é, tem de revolver-se e criar outras demarcações, mudar os mitos e as interpretações que a limitam, mas sobretudo, tem de criar massa crítica.
© 2006 by Rudesindo Soutelo http://www.soutelo.eu
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