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Na sequência dos actos do centenário do escritor trasmontano Miguel Torga, celebrou-se em Vila Real um concerto sob o lema "Torga - Retratos e paisagens". As obras que integraram o programa foram criadas propositadamente para esta homenagem pelo compositor galego Rudesindo Soutelo por encomenda do Ministério da Cultura de Portugal através da Delegação Regional Cultura do Norte.
As obras musicais foram enquadradas pela leitura dos excertos que as inspiram e onde o grupo Camerata senza misura fez a estreia absoluta da obra "O corvo da liberdade".
Reproduzimos a seguir o texto "o corvo da liberade" publicado recentemente pelo autor
O corvo da liberdade
(A leva dos escolhidos entra na Arca.) Eram tempos convulsionados por mudanças radicais. A estrutura vertical da sociedade, intrinsecamente violenta, se derruba. Caos, o estado primigênio e fecundador do mundo, suscita uma nova ordem. A ditadura de João Franco (1907-1908) precipita o fim da monarquia portuguesa. Estamos ás portas da I Guerra Mundial e da Revolução Russa. Foram anos de sucessivas e profundas crises onde os filo-fascistas colheram fôlegos para se opor ao nacionalismo. E nessa venenosa luta ressurge na sociedade portuguesa o saudosismo das glórias pretéritas, o Sebastianismo que Fernando Pessoa descreve na terceira parte de Mensagem, intitulada "O Encoberto", como o sonho do "Quinto Império". Nesse contexto nasce no distrito de Vila Real, em São Martinho de Anta, o 12 de Agosto de 1907, Adolfo Correia da Rocha, conhecido pelo seu alter ego Miguel Torga. (Por quarenta dias recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana.) O movimento modernista português aparece durante a Primeira Guerra Mundial na qual Portugal está formalmente envolvida. Os preliminares encontram-se no movimento da Renascença Portuguesa com a revista A Águia, dirigida por Teixeira Pascoaes e onde Fernando Pessoa se estreia como crítico literário. O 26 de Março de 1915 aparece o primeiro número da revista Orpheu, início oficial do Modernismo, que teve um grande sucesso já que todos os que a compravam ficavam horrorizados. Os orfistas -Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho, os heterónimos de Pessoa, etc.- estavam influenciados pelos manifestos de vanguarda europeus, do futurismo de Marinetti, do existencialismo de Heidegger, e foram chamados de loucos e irreverentes por apresentar poesia carente de metro ou sublimar a modernidade. O "Manifesto Dadá" de Tristão Zara ainda tardará três anos em ser redigido. Júlio Dantas, máximo expoente das letras portuguesas na altura, reage contra a inovação dos orfistas e diz que esses autores são pessoas sem juízo, paranóicos. Almada publica o "Manifesto Anti-Dantas" e por extenso contra a geração tradicionalista duma sociedade burguesa num país limitado. E finaliza «O Dantas é a meta da decadência mental! ... Morra o Dantas! Morra! Pim!», e assina: POETA D'ORPHEU, FUTURISTA E TUDO.
(Superara o instinto da própria conservação e de peito aberto fugiu em protesto activo contra o arbítrio que dividia os seres em eleitos e condenados.) Os orfistas semearam as artes e as letras portuguesas dum tom europeísta e audaz decidido a combater o academismo bem pensante da burguesia. O Modernismo incita à plenitude individual construindo a linguagem a partir do vazio, do não-eu. No rasto do Orpheu surgiram sucessivas publicações literárias a alimentar a modernidade. Exílio 1916, Centauro 1916, Ícaro 1917, Portugal Futurista 1917, Athena 1924-1925 e Presença 1927-1940, marco do segundo período modernista português onde Miguel Torga se integra desde a sua fundação. Mas em 1930, ao considerar que há imposição de limites à liberdade criativa, abandona o presencismo junto com Branquinho da Fonseca e Edmundo Betancourt.
(A voz de Deus ribombou pelo céu imenso, numa severidade tonitruante. Numa minúscula ilha de solidez, no meio dum abismo movediço, impávido, negro, sereno, permanecia o corvo.) «Nasci subversivo. / A começar por mim - meu principal motivo / de insatisfação.» escreve Miguel Torga no seu livro "Orfeu Rebelde". O conto é talvez o cimo da sua expressão literária e os dramas da vida rural na relação do homem com a terra e o mundo, a morte e a solidão, são as constantes que revelam a brevidade e universalidade humana. "Bichos" apareceu em 1940, numa irmandade de animais com sentir humano ou humanos revestidos de animal. Uma Arca de Noé onde a obra se desvincula do seu criador e adquire vida própria. Vicente, a apoteose final de Bichos, subverte a perspectiva teológica do discurso bíblico e se alça como um símbolo de liberdade ao insubordinar-se à verticalidade do omnipotente poder divino -intrinsecamente violento e falocéntrico- com a serena dialéctica horizontal de tratar a Deus num plano de igualdade.
(A morte temia a morte. Ou o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco, ou o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema.) No ano que surgiu "Bichos" o autor foi conduzido a prisão pelas críticas à ditadura fascista do criminal Franco contidas na sua obra "O Quarto Dia da Criação do Mundo". O livro foi confiscado. Fernando Lopes-Graça compõe em 1942 a "História trágico-marítima" para barítono, coro feminino e orquestra, sobre um poema de Miguel Torga. Caos, o estado primigênio e fecundador do mundo, suscitara uma nova ordem.
(Nada podia contra aquela vontade inabalável de ser livre. Para salvar a sua própria obra, Deus fecha, melancólicamente, as comportas do céu.) As seis secções deste artigo (em parêntese) são as que conformam a obra que eu compus para os actos do centenário por encomenda de Cultura Norte do Ministério da Cultura de Portugal. Está escrita para Quinteto de sopros e a estreia será o 5 de Maio de 2007 no Teatro Municipal de Vila Real, repetindo-se logo em Porto, Coimbra, Caldas do Gerês, Chaves, Guimarães, Bragança, Compostela e Zamora. "O corvo da liberdade", inspirada no último conto de Bichos, é uma homenagem a Miguel Torga, a vontade que desafiou a Deus. E com os seus versos eu apregoo: «Junquem de flores o chão do velho mundo: / Vem o futuro aí!».
© 2007 by Rudesindo Soutelo Artigo publicado o 26-IV-2007 em A Nossa Terra www.soutelo.eu |