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Iniciamos a publicação de textos das pessoas participantes em Conhece o teu mundo com um contributo de Isabel Rei, professora de guitarra no Conservatório de Santiago de Compostela e participante na palestra O Reintegracionismo no Mundo da Música em Ourense.
«Conhece o teu mundo»: Era quinta-feira, dia 24 de Maio de 2007, véspera do Dia da Toalha. Era em Ourense, no centro social A Esmorga e graças ao MDL, o pessoal esmorgano e o público presente davam-se os primeiros passos para a composição de uma SINFONIA GALEGA ou de como soa o Reintegracionismo
por Isabel Rei Desde tempo imemorial as vozes e os dedos galegos têm tecido neste cantinho do mundo metros sem conto de músicas de todos os tipos e formas possíveis. Pinturas, esculturas, mosaicos, poemas, imagens, instrumentos, gravados, partituras, desenhos correm a fio pelas veias da Galiza a falarem dos sons que nos envolvem e protegem, que fecundam as fragas e alimentam os caminhos, que embalam os nascentes e chamam pelos ausentes.
Também hoje, entre o mato, borboleteiam músicos e músicas a encherem de sons harmoniosos os bosques harpados e as azuladas beiras dos rios. Como ecos de outros tempos, abrolham cantares das longas fontes abertas e o presente está congestionado de sonoros acordes e brilhantes tessituras a se enroscarem entre as vidas dos que, por sorte ou azar, os ouvem, escutam e reparam.
O outro dia, na Esmorga, houve reunião musical. Era o primeiro concílio de bardos, fadas, faunos e outros seres músicos da floresta em muitos anos. Era, sim, o primeiro da nossa Era, e prometeu não ser o último. Em conjunto perfeitamente afinado os quatro representantes das Musas, foram explicando ao auditório os seus mundos respetivos. Mundos sobre mundos, espaços sobre espaços, os sons das vozes de Ugia Pedreira, José Luís d.P. Orjais, Rudesindo Soutelo e a escrevente, foram-se espalhando pelo local a explicarem como vêem, cheiram e sentem o nosso mundo desde a música da Galiza atual. Ficou patente como desde o trabalho bem feito, apesar de todos os entraves, pode-se ir construindo mais música e mais mundo. Como de qualquer perspetiva musical é possível a desconstrução da irrealidade em que vivemos mergulhadas galegas e galegos, na nossa clausura espanhola e, dizem, democrática. Ficou patente também a longa noite de pedra em que a música galega ainda sobrevive. Porque sobrevive, entre os fentos e as tojeiras, à beira das caniçadas, em baixo das pontes, no Outrolado dos rios. E como é importante manter a música alheada, os músicos isolados, separados de outros músicos e, sobretudo, da gente. A gente, sim, tão musical desde sempre, ignorante da sua própria música, do seu próprio ser.
As canções, a alma de uma pessoa é uma canção. Por isso sátiros e bruxas circundam as florestas encantadas, armadas de flautas e liras e cítaras. Chantando árvores no meio das estradas, disparando melodias aos peitos indefesos, voltando o dia em noite e a noite em dia, e fazendo muitas outras falcatruadas. Para manter acesa a chama que dá vida, as vozes dos sem voz, a voz de todas e de todos bem dentro de Nós. E, como límpidas cascatas a jorrarem num mesmo rio comum e universal, fazê-las sair fora. |