 O taxista de Cádis O passado 7 de Junho celebrou-se no C.S. A Revolta de Vigo uma palestra sob o título Estamos na Net, enquadrada na campanha do M.D.L. Conhece o teu mundo. Esta campanha foi apresentada em Ourense dentro do Festival Em Movimento 2007 e percorrerá o país inteiro durante o próximo ano. O por que desta campanha é claro: estamos na hora de sair da gaveta! O reintegracionismo leva sendo apagado de toda parte ao longo de toda a sua própria história, e hoje, já contamos com força suficiente para dizer: stop.
Mas isso não é suficiente, os e as reintegracionistas devemos conhecer-nos entre nós, devemos ser conscientes das nossas forças para poder sair à rua com a cabeça bem alta e reclamando os nossos direitos. Dai que o M.D.L. tenha criado estes espaços de encontro, porque o diálogo e a experiência fortalecem o movimento. Os/As mais novos/as temos muito que aprender dos/as mais velhos/as e estes também têm que conhecer os frutos das suas batalhas. Pois com esta finalidade, como estava antes a dizer, sentaram-se à volta duma mesa três pessoas com vasta trajectória reintegracionista para partilhar com quem quis a sua experiência pessoal, e mostrar como está o movimento e quais são as forças no seu âmbito de trabalho, neste caso a Internet.
Deste modo falou em primeiro lugar o Doutor José Ramom Flores D’as Seixas, quem num tom muito familiar e próximo, fez um percurso vital da sua experiência reintegracionista e apontou brevemente quais os pontos fracos que ele vê no movimento. Flores D’as Seixas disse uma coisa muito interessante e que nos deveria levar a uma profunda reflexão, ele nunca recebeu cultura anti-reintegracionista; o que isto quer dizer? Quando o Doutor estudava a tendência galeguista era reintegracionista por natureza, hoje não, hoje as nossas crianças recebem disciplina contrária ao reintegracionismo. E não só as crianças, pensemos por exemplo nos/as futuros/as educadores/as de língua “galega”, estes sim recebem de maneira clara uma cultura que põe as costas ao lusismo e que mesmo é muito beligerante. De todos modos, para o Doutor Flores D’as Seixas o nosso movimento está num momento forte, embora mais fraco do que ele próprio poderia desejar. Apontou algumas críticas a ter em conta, como por exemplo, referindo a Academia de Língua Portuguesa, a qual conta com o seu apoio mas do seu ponto de vista falta-lhe massa crítica ainda e pode ser que este não seja o momento mais adequado para a sua criação. Também referiu uma falha que o reintegracionismo tem, que consistiria em criar um material didáctico para as pessoas que se aproximam pela primeira vez e carecem de referências. Disse que há muito bons teóricos no reintegracionismo mas falta ainda um informe tipo “respostas rápidas a perguntas frequentes”. Por último, e com uma visão muito esperançadora, o professor disse-nos que hoje por hoje a Internet permite-nos viver na normalidade, permite-nos aceder a recursos na nossa língua com toda facilidade e estar no mundo. A seguir o Doutor Celso Álvarez Cáccamo começou a sua intervenção defendendo que ele não se considera reintegracionista, ele apenas é uma pessoa normal, e para exemplificar referiu alguém a quem uma vez lhe perguntaram por que falava galego, e esta pessoa respondeu, “Eu não falo galego, eu levanto-me de manhã e falo assim”. Para dar passo ao tema que nos juntava em Vigo, o Doutor Cáccamo deleitou-nos com uma metáfora fantástica sobre a construção das redes, desde as redes de pescadores até as da net. Segundo ele as redes são uma das invenções mais úteis da humanidade; as redes de pescar formam-se através de pequenas uniões que fazem a força, as redes são selectivas, pois segundo cada tipo entra um peixe ou outro (o que interessa) e deixam passar a água (o que não interessa); as redes são por isso um instrumento económico e, por último, as redes são construídas e funcionam de maneira horizontal e não hierárquica. Do mesmo modo que estas redes de pescar, também se constroem as redes sociais que dão passo as nossas sociedades. E o mesmo acontece, portanto, na net, pois não é mais do que uma rede de máquinas conectadas, e uma rede de textos e palavras que constroem o grande hipertexto. Para o Doutor Cáccamo a net hoje é uma ferramenta muito útil e da que podemos tirar muito partido. A net, segundo ele, serve-nos também para estar no mundo, e o mais importante, a net dilui os aspectos identitários, ajuda, portanto, a desfazer preconceitos. Mas também devemos medir-nos à hora de lhe atribuir importância. Devemos ter em conta, à hora de falar da importância da net, quais são os dados de acesso às novas tecnologias. Quantas pessoas têm um computador em casa e quantas dessas conhecem Internet. A nível mundial, evidentemente, a percentagem é ínfima, mas a nível galego não é assim tão alentadora. Dai concluímos, portanto, que existe um claro divórcio, segundo o Doutor Cáccamo, entre a rede de Internet e a rede social; não existe um contacto real entre elas, e não há, hoje por hoje, um esvaziado da net para a sociedade. A aposta pública que nos propõe o professor, seria, por exemplo, tirar as coisas mais interessantes da rede e distribuí-las em forma de folhetos, magazines, revistas...em conclusão tirar o máximo proveito da rede para levá-la à vida quotidiana. Por último, o Doutor Vítor Lourenço Peres apresentou-nos uma breve amostra dos recursos que podemos ter como pessoas reintegracionistas na rede. Para o Doutor Lourenço Peres a Internet abre um mundo de possibilidades mas sempre devemos relativizar a sua importância; a Internet pode abrir, e de facto o faz, portas para outros mundos, portanto tem como consequência que se questione o mundo que nos rodeia. O reintegracionismo, para ele, está a tirar um bom proveito da net, embora em sua opinião, o oficialismo tenha vantagem neste campo. A Internet abriu a teoria reintegracionista ao mundo, consegui que pessoas de muitos lugares tivessem uma achega e colocou como exemplo as visitas que recebe o Portal Galego da Língua, onde se pode comprovar que o site é visitado de lugares muito díspares. Para o Doutor Lourenço Peres o reintegracionismo ganhou vitalidade com a introdução na Internet, e sobretudo, permite a pessoas reintegracionistas viverem na sua normalidade, quer dizer, a Internet oferece qualquer tipo de necessidades que uma pessoa desejar, e estas necessidades podem ser cobertas em portais lusófonos. Em definitiva, a Internet permite abandonar a hispanofonia e a hispanografia para desenvolvermo-nos no espaço lusófono. E para esclarecer este ponto, o conferencista fez um experimento com o público, mandou um voluntário ler um trecho do portal do National Geographic ( versão em português), para provar que nenhum galego que souber ler tem qualquer problema para perceber um site em português. Para finalizar, foi colocando exemplos de diferentes sites galegos que estão feitos em norma reintegracionista e o sucesso destes, e como conclusão dir-nos-ia que não se deve centrar tanto o debate na questão da língua e esta tem de passar a ser uma questão transversal, e sobretudo que para que a construção tenha sucesso precisam-se muitos profissionais que trabalhem na net. A partir daqui o público estava já desejoso de abrir diálogo e foram muitas as pessoas que aportaram ideias interessantes e colocaram outras questões na mesa. E até aqui caros e caras foi a segunda paragem do comboio “Conhece o teu mundo”, porque este comboio que partiu de Ourense dia 5 de Maio não pára, este comboio ensina, a primeira lição que nos deu foi que os e as reintegracionistas devemos tirar para a frente todos os dias, e se não temos espaços devemos criá-los, mas devemos continuar a fazer produtos de qualidade, foi na Esmorga o dia 24 de Maio. A segunda lição foi na Revolta, ensinou-nos que Internet nos permite viver numa rede na que nos sentirmos normais, mas ficando ainda por fazer um trabalho pendente: levar essa normalidade às ruas. A este comboio ainda lhe restam paragens, a próxima, dia 21 de Junho na Gentalha do Pichel. E se alguém fica com a dúvida de por que este texto se intitula “O taxista de Cádis”, a recomendação é que vá até Cádis e comprove por si próprio/a quão é difícil chegar a qualquer lugar de destino e fazer-se entender. Teresa Carro, Porta-voz do MDL |