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Continuamos com a publicação de textos das pessoas participantes em Conhece o teu mundo com um contributo de Rudesindo Soutelo, participante na palestra O Reintegracionismo no Mundo da Música em Ourense.
A Língua do Aquémpor Rudesindo Soutelo Há um mundo em cada um de nós mas nem sempre é visível. Temos de vassourar a existência para sentirmos o aquém da vida. Há uma essência que nos preenche por cima da desnaturalização do ser. O MDL (Movimento de Defesa da Língua) convidou-me para uma palestra na Esmorga de Ourense sobre o “Reintegracionismo no mundo da música” junto com Ugia Pedreira, José Luís do Pico Orjais e Isabel Rei, dentro da campanha “Conhece o teu mundo” que estão a desenvolver por toda a Galiza. Mas esclarecer o porquê de eu falar e escrever numa língua universal ou o porquê de eu ter de o fazer noutra de maior ou menor alcance é algo que não compreendo mais além da conjunção geográfica e o contexto onde vi a luz da cultura.
Nasci na Galiza, berço duma língua literária, poética e cientista que hoje, graças aos empreendimentos marítimos de Portugal, empregam mais de 200 milhões de pessoas, e até mesmo um rei castelhano, ao que talvez por isso chamam “sábio", serviu-se da nossa língua para compor o maior monumento da música culta ocidental, as Cantigas de Santa Maria. Com antecedentes desse prestígio e importância o que se teria de esclarecer é o porquê da nossa língua não ser a língua franca de toda a Ibéria. Que eu escreva assim como escrevo é pois o natural, mesmo se as minhas primeiras palavras foram balbuciadas e rabiscadas no hemisfério sul, no Rio de Janeiro, onde falam a nossa língua com uma música muito meiga semelhante à da minha avó, que nunca saíra da Galiza. Quando retornei à minha aldeia, com quatro anos de idade e me levaram à escola, foi traumático e contra natura ver como os alunos que pronunciavam uma palavra na nossa língua recebiam um açoite com um vime amarelo. Evidentemente a música da língua do mestre era seca, ceceante, áspera e alheia às nossas cadências melosas. Ele não era galego nem conhecia a nossa língua, mas fora trazido cá como instrumento desgaleguizador do regime fascista para consumar aquela “doma y castración del Reyno de Galizia” ordenada pela Rainha Católica como vingança por ter a nobreza galega defendido a Joana de Castela -Excelente Senhora para os portugueses e Beltraneja para os traidores castelhanos- como legítima herdeira do trono de seu pai Henrique IV de Castela, usurpado pela sua tia Isabel. Contudo aqueles meninos éramos teimosos e ao sair pela porta da escola continuávamos a falar a nossa língua. Assim é como nos fomos tornando analfabetos em dois idiomas, pois na escola escrevíamos uma língua que não falávamos, porém não nos ensinavam a escrever a que sim falávamos. Já na adolescência consegui retornar à escrita da minha língua mas não compreendia o porquê de aqui se grafar dum modo diferente. Sabia que Murguia, o primeiro Presidente da Real Academia Galega, dissera em 1891, nos Jogos Florais de Tui, que “nunca pagaremos aos nossos irmãos portugueses que fizeram do nosso galego um idioma nacional” pois para ele “uma e outra língua são totalmente a mesma, nas suas origens, no seu desenvolvimento e nas suas condições". Também sabia que Castelao no Sempre na Galiza dissera que “a nossa língua está viva e floresce em Portugal” e, no prólogo de Cantares Galegos, Rosalia Castro advertira que escrevia “sin gramática nin regras de ningunha clas” por tanto não podia ser um modelo. Mas o inimigo juntara-se a nós para promover uma grafia fonética com base na ortografia do espanhol, a única que conheciam os alfabetizados, e nos contaminaram de vocábulos e pronúncias alheias. Imaginem o andaluz escrito tal e como eles falam e com a ortografia, a música e muitas palavras do português, ou vejam o que é o spanglish. De tal modo nos isolaram do tronco comum que já é mais fácil ser compreendidos por um madrileno do que por um lisboeta. E aí está o cerne da questão pois tanto Madrid como Lisboa entram em pânico quando lembram que a Galiza e o norte de Portugal têm a mesma cultura. Um exemplo: os sucessivos atrasos na ligação Corunha-Vigo-Porto por TGV/AVE para evitar ser concluído antes das conexões com as respectivas metrópoles estatais, ou mesmo a reduzida velocidade que vão alcançar os comboios, mais própria do século passado, faz parte desse terror infundado à reunificação da Gallaecia. Muito dinheiro se está a esbanjar para fomentar um separatismo cultural e linguístico artificial, e mesmo os que promovemos a reintegração ao tronco linguístico comum estamos a ser discriminados porque a lei não permite ambas grafias. Negam-se subsídios ao jornal reintegracionista Novas da Galiza enquanto a imprensa galega escrita em espanhol se beneficia de grandes quantidades de dinheiro por publicar anedóticas páginas em galego. Infelizmente há gente que vive dos subsídios de publicar livros desnecessários, mas não só há medíocres a invocar uma lei que é desintegradora e nos fecha as portas do mercado natural da Lusofonia -na fim de contas a cabeça é que não lhes dá para mais- senão também há muito reaccionário a impedir o avanço das ideias e da nossa cultura, por isso se opõem a modificação duma lei que só discrimina os que procuram restituir a unidade, tradição e dignidade da língua. No mundo profissional da música temos uma realidade algo diversa mas há instituições que insistem em nos inserir na cultura castelhana e aí é que somos uma nota discordante. Como o Concelho de Tui que diz pôr a sinalização turística só em castelhano para facilitar a compreensão aos portugueses. Ou o concerto que deu a Banda Municipal da Corunha no passado dia de S. João no Porto, em cujo programa anunciado não figurava nenhum compositor galego. Talvez por estar enquadrado no ciclo Dias de Espanha não tinham claro se isso ia connosco. E assim imos desartelhando a nossa cultura. Ser administrativamente espanhóis, politicamente galegos e culturalmente lusófonos é um dos sinais de identidade desta nação mas também uma oportunidade extraordinária para nos desenvolvermos, se é que desistem de nos cortarem a língua. Entretanto ficam convidados à Casa da Música do Porto no dia 12 de Julho próximo ou ao Teatro da Cerca de São Bernardo de Coimbra no dia 28 de Julho para ouvir a minha obra “O corvo da liberdade", porque a língua é a essência que nos preenche no aquém da vida.
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