É muita pedra. E ao menor descuido leva-se por diante o suor, o esforço, os dedos, as mãos, as pernas e até as vidas dos trabalhadores. A turma tarda tempo em se afazer à tarefa. A pedra – o leitor sofre com esta maldita pedra – avança desesperadamente aos poucos. Afinal a cousa vai.
Pragmaticamente, um conjunto, um projeto, um sistema, uma organização funciona (além de toda a teoria, estratégia e de toda a planificação conjunta, de toda a purga, escolha, de toda a particularidade, êxito ou fracasso das partes ou dos indivíduos) quando é evidente que as séries de mudanças provocadas, acompanhadas ou simplesmente assimiladas, têm colocado o sistema numa posição melhor a respeito da sociedade presente em que se movimenta.
De feito há teóricos que mesmo consideram que tanto tem tratar de procurar ou investir no equilíbrio entre iniciativas, departamentos, recursos e habilidades do pessoal (além do que objetivamente está perto ou baixo controlo real) e como simplesmente muitas vezes é mais operativo (e bem menos custoso) deixar que este equilíbrio aconteça.
Se o sistema tem condições para ser perdurável, o equilíbrio produzir-se-á de jeito natural. Por isso, um sistema perfeito para muitos teóricos conservadores é aquele que de algum jeito reproduz a sociedade (e portanto contribui para se reproduzir) entanto para outros um bocadinho mais progressistas é melhor ainda o que espelha adiantadamente subtil aquilo a que caminha a sociedade (e portanto contribui para fazer que aconteça).
Isto quer dizer, um sistema destinado a suceder a médio, longo prazo é aquele onde as opções, métodos e pessoalidades impulsivas, rompedoras e passionais são compensadas (mas não apagadas) pelas opções, métodos e pessoalidades demoradas, conservadoras e reflexivas e onde, à sua vez, as segundas são obrigadas a se movimentar continuadamente e não virarem pedra por causa das primeiras.
O confronto perpétuo, o choque pontual mesmo, longe de ser negativo para as organizações, adoita ser positivo. A vitória de uma das partes é que rompe o equilíbrio com a própria sociedade. Isto, quando se detém o poder pode modificar radicalmente a sociedade (seja o despotismo ilustrado ou os
soviets), mas quando se é um projeto emergente ou uma pequena empresa, pode virar clara desvantagem.
Seja como for, definir, conhecer e compreender todos os elementos e recursos que fazem parte de um sistema, com as habilidades, defeitos, fraquezas, pontos fortes dos recursos para os fazer funcionar a um tempo, é uma tarefa complicada, na qual se investe muito tempo.
Submeter a filtro as queixas e as críticas para as tornar análises e soluções, analisar as habilidades individuais para as entender e considerar em que parte do sistema inter-atuariam melhor exige muito esforço, grandes doses de tolerância, muita observação e maior paciência.
Às vezes a cousa não é o pessoal como o jeito em que se agrupa. No filme Ben-Hur, quando a personagem, volta de incógnito para a sua terra (já depois de ter sido traído, encarcerado, passado pelas galés, combatido, naufragado, trunfado como auriga no coliseu e mesmo adotado por patrício romano) topa um mecenas árabe (seguramente palestiniano por isso da concórdia fílmica) que se desespera ante a incapacidade dos seus formosos cavalos para correrem num mesmo tiro.
A cousa sabe-se logo (diz Heston com esse aceno de quem tem a espingarda colada à mão e olha como quem a sabe usar) é tão simples como colocar o cavalo que corre no centro na esquerda já que cabeceia sempre à direita, e o da esquerda na direita porque é o mais lento (e isso é bom para as curvas) e o que corre na direita no centro porque é o mais forte e o que mais guia no tiro.
Pensar é tarefa mui pesada. Por isso também enquanto possível as orientações, os liderados devem ser colegiados. Os melhores líderes não são aqueles que reúnem ao seu redor as vozes concordantes senão aqueles capazes de tomarem as suas decisões em função de um coro discordante de vozes e pontos de vista.
Mas mesmo nenhum líder, por mui flexível que for, é ajeitado para todo o tempo. A sucessão nos liderados, quando pertinentes e bem escolhidos, contribui normalmente a potenciar os elementos sistémicos necessários e as agrupações vantajosas em cada mudança de situação. Numa situação de defesa um liderado ativo pode não ser de utilidade, entanto em uma situação de expansão ou ataque normalmente não é recomendável um líder defensivo.
A função de um liderado defensivo seria logo tratar de evitar no possível que os desequilíbrios grupais e pessoais gerassem choques ou situações de confronto permanente que afetassem o conjunto entanto se organiza uma resistência eficaz a cada ataque.
A função de um liderado ativo seria logo saber fazer movimentar as partes, agrupar e desagrupar pertinentemente para gerar debates e movimentação e os recursos precisos em cada momento para resolver cada nova situação de tomada de objetivos.
Mas uma boa sucessão de liderados acompanhada de um sistema complexo (em que há elementos, recursos e projetos diversificados perfeitamente adequados a um sem número de situações e trabalhos) é por si próprio um sistema ideal para suceder entanto se não desatenda a logística e não se sobrecarreguem ou abandonem certas partes.
Uma boa estratégia deve atender o objetivo do conjunto e não descuidar a logística e motivação das partes. Mas as cousas são difíceis de enxergar entanto se está no meio da
mêlée.
No meio da batalha, como Fabrizio del Dongo, apenas podemos olhar além das miras das espingardas ou atender pelas nossas cabeças. Avançamos, retrocedemos, carregamos muitas vezes cegos sem fazermos conta de posição amiga ou inimiga.
Realmente apenas podemos enxergar o que faz pouca gente num espaço mui reduzido ao nosso redor e se metidos na mesma tarefa. Por isso são tão importantes a informação, a comunicação quanto a confiança no que estão a fazer (ainda que não percebamos e até consideremos disparate) outros combatentes noutras partes. A Internet ajuda.
Por isso, a mim, pouco me preocupa escrever com gralhas, dar o dado erróneo, estacar, me desanimar, avançar além do prudente, andar entusiasta ou canso, tirar com força demais num sentido... Sei que outrem me segurará, fará me movimentar, achegará o dado ou tirará noutro sentido. Conto com gente que apenas conheço para me corrigirem, para criticarem os meus trabalhos, para os melhorarem com a sua opinião. Tenho por certo que desenham estratégias compensadoras. E gosto de sentir como me avisam, animam, espevitam ou fazem voltar à realidade...
Afinal de contas, o paradoxo dos ecossistemas é este: tender aos equilíbrios funcionais entanto se produz a evolução como resposta permanente.

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